quarta-feira, 30 de abril de 2008

Cidade velha

CIDADE VELHA

O vento solitário sopra nas ruas, a noite vem de mansinho se aconchegar na aparente calmaria do centro velho, que quase sem movimento, vai de carona se assentar nas praças iluminadas, onde reside o lado nostálgico, que sem alvoroço vê os habitantes que vão tomando lugar nas cenas que completam o panorama, existe todo um significado lúdico, são passageiros de uma só esfera anônima, que carregam nos olhos um sentido do não explicado, apenas são feitos de fragmentos de qualquer razão que os faça respirar.
A cidade é um contra argumento, é discutida nas rodas de prosa de cada esquina, as ruas são marcadas pela historia que cujo narratoria vem de elementos que fazem parte de um quebra cabeças, é todo essência, mesmo que seja o contrario das opiniões que segue os hábitos populacionais.
A cidade não dorme, fica em alerta, abrigando os passageiros que de teimosos repetem sucessivamente o de costume, em cada direção pulsa uma vontade, o desejo é algo vulnerável, todo ser noturno é arredio, mas frágil além da visão dos olhos, o sonho permanece condicionado ao coração, não existe diferença, apenas são não convencionais para certos parâmetros.
A cidade segue seu próprio ritmo, a maldade é nos que vemos, nada do que não seja preciosa, a vida se equilibra nas entrelinhas sobre fatos alheios, a vontade somente conduz o livre arbítrio.
Na cidade é que tudo acontece, existem paraísos multilaterais, a noite é preciosa, cheia de magia, homens e mulheres munidos de coragem navegam na madrugada à procura de alguma aventura.
Em frente ao terminal rodoviário, no lado esquerdo sobre a calçada, um vendedor de cachorros quentes, ganha a vida com sua carrocinha, ele fica o dia inteiro de olhos atentos, fica forçando ver através das lentes artificiais, acompanha de perto, mas quando chega a noite, não perde um movimento, neste lugar, já viu um pouco de tudo.
De fato este rapaz é testemunha ocular de tudo que acontece pela redondeza, pois conhece todos os ladrões do trecho, trombadinhas e trombadões, prostitutas, transexuais, travestis e toda sorte de pessoas que circulam e se diferenciam das de mais.
Enquanto vai preparando os cachorros quentes, vai ouvindo os depoimentos de seus fregueses, que muitas vezes contam suas historias tristes ou alegres propostas, pedidos e até conselhos.
Bêbados ficam caídos de baixo das marquises das lojas ou em frente dos bares, às vezes são pessoas ilustres que se embriagam, acabam sendo vitimas da violência urbana, que é muito comum neste lugar.
No velho centro existe um exercito de andarilhos, a fome assola a barriga de muita gente, enrolados nos trapos, passam a noite deitada nas calçadas, o pessoal da sopa chega sempre na hora certa e socorre os famintos.
Cafetões vigiam suas ninfas, garotões circulam a procura dos passadores de droga, estes espalham o produto pela cidade, a população dorme intranqüila sobre égide do inesperado.
A cidade é uma caixa de surpresas, existe um quadro crônico de insegurança, ladeira abaixo pivetes ensaiam um biscate a mão armada, como de costume a noite passa despercebida e silenciosamente às avessas nas sombras escondidas em dúzias de tragédias que quase sempre não chegam aos plantões policiais.
As tragédias circulam pela orla o fora, é a moradia ruim, a falta de dinheiro para comprar o pão, o menino que pede no sinal fechado, a mãe que chora a falta do filho que foi assassinado, as balas perdidas desta arma silenciosa que é o pouco caso.
Os boêmios são os últimos a partir, o sol vem os consolar com reluzente prazer de ter companhia, a aurora festeja um dia por vir, é mera satisfação, é quase inocente as ruas vazias da manhã de hoje, é quase desfeito o juízo que a lua impôs de tão bela a noite passada, o sereno cai sobre o acontecido, quimeras de felicidade, os sinos labutam marcando o tempo, o coro de pássaros anuncia que tem missa na matriz, pessoas em ritmo acelerado vão a caminho do trabalho, a cidade transcorre normalmente.


Marcelo Planchez

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