As aventuras do Gato Coelho.
Numa vila distante, há uma casa branca com janelas amarelas.
Nesta graciosa casa mora um gato esperto, cujos olhos são azuis cor de alegria e se veste elegantemente com seu belo pelo alvo.
Sua aparência é de um coelho, mas é um gato que todos conhecem muito bem, pela qualidade de suas travessuras.
Passa o dia dormindo tranqüilamente, mas durante a noite o gato faz dos telhados a passarela de seus horizontes.
De muro em muro lá vai se equilibrando a todo custo com o auxilio de seu longo rabo.
O gato se olha nos espelhos das vidraças, acha-se lindo e segue o seu destino.
Como é de costume, o gato escuta a voz de seu estômago que reclama por uma lata de lixo, onde no mínimo deverá encontrar algumas cabeças de sardinha.
É muito curioso quando esse gato sobe para os telhados e de lá mia chamando as fêmeas da vizinhança, nas ruas paralelas às gatas ouvem o chamado e prontamente sobem para o telhado.
Dali em diante segue o longo namoro, destes que duram semanas, com muita disputa escolhe seu par.
Este gato, em especial, é um malandro que se destaca com peripécias e inteligência.
Todas as suas manobras são bem planejadas, suas pescarias são em aquários alheios, suas caçadas são em gaiolas de canários, mas é pura inocência!
O bichano vai de pé em pé, com as unhas afiadas escala os obstáculos, sempre com um apetite de leão, mas continuamente é impedido por um acontecimento inesperado.
Dona Ricardinha está sempre atenta, o alerta é quando o pássaro está assustado na gaiola.
Munida de sineta na mão espanta o gato, que sai em disparada saltando como um louco.
O gato fica semanas sem aparecer, escondido num velho armazém, pela fresta da porta espera atento o momento em que a noite chega, para que possa sair para seus passeios habituais.
No beco sem saída ao lado da rua principal do bairro, o gato desfila todo elegante.
Neste mesmo beco num buraco do muro, mora Red um pequeno camundongo, que estranhamente não virou refeição do gato esperto.
Red conhece o Gato Coelho há muito tempo.
Não chegam a ser parceiros, porque existe entre eles uma rivalidade “de gato e rato, o que é muito normal”.
O Gato Coelho observa todos os movimentos do lugar.
De repente, enxerga o camundongo Red que passa ligeiro para dentro do buraco do muro e por um triz escapa de suas garras afiadas.
O céu fica distante, mas o gato deita-se imaginando brincar com as estrelas.
Pula e cai no chão e assim vai a noite inteira, sonhando com as estrelas e os novelos de lã.
Quando se abre um portal mágico, de cidades imaginárias, onde gatos são reis, onde não existe maldade, avenidas de sossego são grandes, ruas de carinho são mais amorosas, o amor predomina por todo horizonte, lágrimas só de chuva, os ventos vêm se encontrar de tardinha para matar a saudade da ultima porção criança adormecida no fundo da mãe alma.
No mesmo quarteirão Dick um Pastor Alemão, é vigia de um casarão de luxo, com bonitos jardins e imensas varandas.
Os muros são bem altos.
Não dá para ver nada pelo lado de fora; tudo fica bem guardado.
Mas o Gato Coelho é cara de pau e de cima do muro não tem um pingo de medo do cachorro que late sem parar.
Desfila pelo beiral do muro a vontade, fazendo-se de prosa e não dá a mínima para a existência do cachorro, que nota sua presença.
O inverno chegou e com ele veio Stella filha de Ângela cujos olhos são verdes como a piscina.
É mais uma menina para compor o clube de crianças amigas deste gato, que vive perto das brincadeiras, rodeando, vigiando e aprendendo que existe um novo mundo, o mundo das crianças.
Com olhos afixados no nada, ele matuta em seus pensamentos como seria conviver em mundos diferentes, mas tão próximos.
As meninas brincam de amarelinha e de pique.
Quando elas se escondem o gato observa, com uma tremenda vontade de participar das divertidas brincadeiras, mas como brincar se ele não sabe as regras das brincadeiras!
Todas as manhãs as crianças da vila vão a caminho da escola:
Joaninha, Débora, Pedro e José, o Gato Coelho não entende muito este lance de ter que ir à escola, mas, mesmo assim, acata a decisão das crianças e as acompanha até a porta da escola.
Depois de alguns minutos ele volta pelo mesmo caminho que veio, apreciando a paisagem e andando no meio das flores.
Por todos os lados existem flores; são instantes de satisfação para o gato que fica maravilhado com a natureza.
O Gato Coelho gosta da vida mansa que leva.
Debruçado sobre uma tigela de leite, vive muito bem, deliciando-se em aventuras pelo cotidiano.
Pela redondeza existem outros gatos, mas o Gato Coelho não se intimida.
Dizem até que é o valentão do lugar, pois vive o tempo todo com as orelhas machucadas.
Mas na verdade, sempre leva a pior e se coloca em posição de fuga.
O mais rápido possível arruma um lugar para se esconder.
Chegando o outro dia o perigo já passou, o Gato Coelho anda pelas ruas como um vitorioso, parecendo o xerife do quarteirão, todo empinado.
Nem parece que tomou uma surra a noite passada, que apanhou como gente grande!
José tem sete anos, mora vizinho a este gato peralta, toda a manhã, José coloca uma tigela de leite e espera que o gato se aproxime, em minutos o gato chega e vai logo roçando nas pernas do menino, ali ele fica um longo período, depois de tomar todo o leite da tigela, parte para outro lugar.
Tudo está sob controle; ruas vazias, manhã de segunda-feira.
O gato dorme como um anjo, descansando na calma do silêncio, até que o galo canta e acaba o sono do gato, que fica irritado e pensa que este galo daria um belo café da manhã.
O galo se chama Alex.
É protegido de Seu. João, o marceneiro.
É orgulho de seu dono, pois canta exatamente às 5horas da manhã, horário que começa o seu trabalho, de acordar o Seu. João.
Seu. João nunca pensou em levar este galo para a panela, pois Alex já é membro de sua família, todos os membros da família de Seu. João gostam muito dele e, além disso, o galo é muito velho, suas esporas já gastas, por isso existem muitas razões para manter o galo cantando.
O Gato Coelho não se conforma com a cantoria de Alex, mas o respeita e o espia de longe sobre os muros.
As novidades que o gato traz consigo, vão muito além do imaginado.
O Gato realmente aguça a curiosidade das pessoas, nunca houve um gato tão bonito no bairro, as histórias continuam acontecendo, os olhos azuis do gato testemunham fatos decorrentes do costume dos vizinhos e principalmente das crianças que o adoram.
Ainda ontem o Gato saltava em direção à samambaia de Dona Dita para comer lagartas, seus pulos eram imensos, derrubando uma por uma e em seguida fazia as refeições.
O gato existe no imaginário infantil, a fantasia toma conta das fronteiras do coração, porque dele nada se deve esconder.
São as crianças que se aproximam dos animais, o gato é o verdadeiro herói infantil, os mundos tendem-se a um encontro.
Tudo se transforma quando a fantasia acontece e por conseqüência, a realidade abraça a fantasia.
O gato com suas sete vidas se dedica a preencher um espaço vazio que sempre traz de volta segredos que mingúem explica.
Um dia todos os gatos encontrarão seu lugar na calma de algum lar.
É o brilho fácil do sorriso largo do menino, que busca a razão, apenas portando inocência, indo ao encontro de um bichinho de estimação que fala com os olhos, coisas que ninguém mais diz, uma sensação que o conforta, coisas que só os anjinhos entendem, uma linguagem silenciosa que diz algo mais que as simples palavras.
Marcelo Planchez.
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